Seu dom, sua vocação ou suas escolhas pessoais?

 

“O jogo da imitação”

Em uma sociedade extremamente patriarcal e conservadora, até que ponto, questões de cunho pessoal interferem no mérito por competência e desenvolvimento profissional? Seja na vida do icônico matemático Alan Turing, ou na de sua parceira de trabalho Joan Clark, o filme “O jogo da imitação” perpassa, em um cenário de guerra e tensões políticas, como as pressões sociais interferiram na vida de verdadeiros heróis, capazes de vencer Alemanha nazista durante a segunda guerra mundial.

O foco do filme recai sobre Alan, contando a história de sua vida e da construção de sua máquina – Cristopher – criada para decodificar os códigos gerados pela “Enigma” (maquina utilizada pelos nazistas, para comunicação, durante a guerra), assim como, qualquer outro código que fosse necessário, exercendo um papel de “decodificador universal”. Entretanto, Alan tinha problemas sérios de integração social, possivelmente algum grau de autismo e era homossexual, isso, em um contexto de Inglaterra do século XX que proibia relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. Sendo assim, ao final de sua vida, após vencer a guerra, Alan foi condenado a passar por uma terapia hormonal que, supostamente, “curaria suas tendências homossexuais” e acabou se suicidando, aos 41 anos. O que leva o espectador a refletir sobre a grandeza do feito de Alan Turing e a injustiça que transformou sua vida.

Sua orientação sexual não o impediu de criar um computador que, não somente venceu a guerra, mas foi base para diversos estudos posteriores, impulsionando o crescimento da área de ciências da computação. Além de ter permanecido no anonimato, sua inteligência e perspicácia foram desconsideradas quando foi condenado por “obscenidade”.

Não obstante e nem menos importante, o filme aborda o machismo – ainda existente – na sociedade, quando, superficialmente, mostra a história de Joan Clarke, única mulher selecionada para a equipe de Turing e que, quase precisou abortar a missão por ser solteira e seus pais não aceitarem que ela morasse fora de casa sem um marido. Ironicamente, o primeiro algoritmo criado na história foi desenvolvido por uma mulher, a britânica Ada Lovelace.

  • Apesar de ser um filme de um momento especifico do passado, a reflexão é atemporal, questionando o quanto a inteligência está subjugada a posição social, gênero, orientação sexual e, sobretudo, favores políticos. Ainda hoje, a sociedade promove a manutenção de estereótipos que antagonizam com a capacidade intelectual de quem foge aos padrões.Texto: Yasmim Thasla

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